Contar histórias é uma das práticas humanas mais antigas. Nas últimas décadas, a neurociência e a psicologia começaram a investigar o que acontece no cérebro e no corpo de quem ouve uma narrativa. O capítulo “A ciência por trás das histórias”, do livro Contoterapia: Bases Teóricas e Narrativas do Cuidado, reúne parte dessas pesquisas. Aqui estão algumas delas, em linguagem simples.
Um aviso honesto antes de começar: esses estudos ajudam a entender por que as histórias nos afetam, mas não são uma prova científica da eficácia da Contoterapia® como método. O livro os apresenta como diálogo, e é assim que devem ser lidos.
Histórias à luz da fogueira
A antropóloga Polly Wiessner (2014) registrou as conversas dos Ju/’hoansi, caçadores-coletores do deserto do Kalahari. Durante o dia, só cerca de 6% das conversas eram narrativas; o foco era prático. À noite, ao redor do fogo, as histórias passavam a 81% das conversas. O fogo criava um espaço próprio para imaginar, lembrar e se vincular.
A rede que trabalha quando estamos “desligados”
A rede de modo padrão é um conjunto de regiões cerebrais que se torna mais ativo quando não estamos focados numa tarefa externa: ao lembrar, imaginar o futuro ou pensar nos outros. Descrita por Raichle e colegas (2001) e aprofundada por Buckner, Andrews-Hanna e Schacter (2008), ela está ligada à memória autobiográfica e à cognição social, justamente os territórios que uma boa história mobiliza.
Em contraponto, a rede executiva cuida do pensamento concreto, do planejamento e da solução de problemas. O livro discute como a escuta de histórias favorece a passagem entre esses dois modos.
Neurônios-espelho e empatia
Os neurônios-espelho, estudados por Giacomo Rizzolatti e colegas, disparam tanto quando realizamos uma ação quanto quando vemos alguém realizá-la. Eles ajudam a explicar por que sentimos com os personagens: acompanhar uma história é, em parte, viver por dentro o que eles vivem.
Narrador e ouvinte em sintonia
Pesquisas de Uri Hasson e colegas (2012) mostraram que, quando alguém conta uma história e outra pessoa ouve, a atividade cerebral dos dois tende a se sincronizar, fenômeno chamado de acoplamento neural. Quanto maior essa sintonia, melhor a compreensão. Para a Contoterapia®, é uma pista de por que a presença e a voz de quem narra importam tanto.
Ficção, empatia e transporte narrativo
- Raymond Mar e Keith Oatley (2008) descrevem a ficção como uma espécie de simulação da vida social, que permite ensaiar experiências e compreender intenções alheias.
- David Kidd e Emanuele Castano (2013) relataram, na revista Science, que a leitura de ficção literária melhorou o desempenho em testes de teoria da mente, a capacidade de inferir o que o outro pensa e sente.
- Melanie Green e Timothy Brock (2000) descreveram o transporte narrativo: o estado de imersão em que o ouvinte “entra” na história e fica mais aberto a novas perspectivas.
Histórias na UTI pediátrica
Um dos estudos mais citados no livro é o de Guilherme Brockington e colegas, publicado em 2021 na revista PNAS. Crianças internadas em unidades de terapia intensiva ouviram histórias contadas por um narrador; um grupo de comparação participou de uma atividade com charadas. Em comparação com esse grupo, as crianças que ouviram histórias apresentaram:
- aumento da ocitocina, hormônio associado a vínculo e confiança;
- redução do cortisol, marcador de estresse;
- menor percepção de dor;
- mais palavras com carga emocional positiva ao falar do hospital e da equipe.
Para o livro, o estudo mostra que contar histórias não é um gesto apenas recreativo: é uma intervenção simples e acessível, com efeitos que podem ser medidos no corpo.
Emoção, memória e repetição
O livro também recorre a Mary Helen Immordino-Yang e António Damásio, que mostram como atenção, memória e decisão estão entrelaçadas com a emoção, e a Daniel Siegel, sobre como experiências repetidas moldam o cérebro ao longo da vida. Daí uma orientação prática da Contoterapia®: ouvir o mesmo conto muitas vezes, em momentos de calma, para que ele tenha tempo de ser assimilado.
Ciência e mistério
A ciência é uma das três bases da Contoterapia®, ao lado da tradição e da experiência. Ela ilumina parte do que acontece quando ouvimos uma história, sem esgotar o que há de simbólico e singular nesse encontro. Leia mais sobre esse tripé em o que é Contoterapia®.
Referências citadas
- Brockington, G. et al. (2021). Storytelling increases oxytocin and positive emotions and decreases cortisol and pain in hospitalized children. PNAS.
- Buckner, R. L.; Andrews-Hanna, J. R.; Schacter, D. L. (2008). The brain’s default network. Annals of the New York Academy of Sciences.
- Green, M. C.; Brock, T. C. (2000). The role of transportation in the persuasiveness of public narratives. Journal of Personality and Social Psychology.
- Hasson, U. et al. (2012). Brain-to-brain coupling: a mechanism for creating and sharing a social world. Trends in Cognitive Sciences.
- Kidd, D. C.; Castano, E. (2013). Reading literary fiction improves theory of mind. Science.
- Mar, R. A.; Oatley, K. (2008). The function of fiction is the abstraction and simulation of social experience. Perspectives on Psychological Science.
- Raichle, M. E. et al. (2001). A default mode of brain function. PNAS.
- Rizzolatti, G.; Craighero, L. (2004). The mirror-neuron system. Annual Review of Neuroscience.
- Wiessner, P. W. (2014). Embers of society: firelight talk among the Ju/’hoansi Bushmen. PNAS.